A utilidade do conhecimento inútil1
Resumo – Publicado na revista Harper’s (n. 179, p. 544-552, 1939), o artigo do educador Abraham Flexner (1866 – 1959) apresenta-nos uma profunda reflexão sobre a utilidade ou não do conhecimento, enquanto aplicação prática e cotidiana. O autor ressalta a importância primordial da liberdade espiritual e intelectual na produção do conhecimento. Flexner finaliza o artigo com considerações seminais sobre a então recente criação do Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, idealizado por ele, em que as pessoas com ideias desfrutariam a liberdade de condições favoráveis à reflexão e à troca de ideias.
Palavras-chave: conhecimento; liberdade; ciência; cultura; estudos avançados
APRESENTAÇÃO
Não é curioso que, em um mundo imerso em ódios irracionais que ameaçam a própria civilização, homens e mulheres — jovens e idosos — se apartem total ou parcialmente do fluxo furioso da vida cotidiana para se dedicarem ao cultivo da beleza, à expansão do conhecimento, à cura de doenças, ao alívio do sofrimento, como se os fanáticos não estivessem simultaneamente empenhados em espalhar dor, fealdade e sofrimento? O mundo sempre foi um lugar lamentável e confuso — contudo, poetas, artistas e cientistas ignoraram os fatores que, se levados em consideração, os paralisariam. Do ponto de vista prático, a vida intelectual e espiritual é, à primeira vista, uma forma inútil de atividade, na qual os seres humanos se entregam, pois obtêm para si maiores satisfações do que seriam possíveis de outra forma. Neste artigo, abordarei a questão de até que ponto a busca dessas satisfações inúteis se revela inesperadamente a fonte da qual se deriva uma utilidade inimaginável.
DISCUSSÃO
Ouvimos repetidamente que vivemos em uma era materialista, cuja principal preocupação deveria ser a distribuição mais ampla de bens materiais e oportunidades mundanas. O clamor justificado daqueles que, sem culpa própria, são privados de oportunidades e de uma parcela justa de bens materiais desvia um número crescente de estudantes dos estudos que seus pais seguiram para o estudo igualmente importante e não menos urgente de problemas sociais, econômicos e governamentais. Não tenho objeções a essa tendência. O mundo em que vivemos é o único mundo sobre o qual nossos sentidos podem testemunhar. A menos que se torne um mundo melhor, mais justo, milhões continuarão a ir para os seus túmulos em silêncio, tristes e amargurados. Eu passei vários anos implorando para que nossas escolas se tornassem mais atentas ao mundo no qual os nossos alunos estão destinados a viver suas vidas. Às vezes me pergunto se esse fluxo da vida não se tornou forte demais e se haveria oportunidade suficiente para uma vida plena caso o mundo fosse esvaziado de algumas inutilidades que lhe conferem significado espiritual; em outras palavras, se nossa concepção do que é útil não se tornou tão restrita a ponto de não ser adequada às possibilidades aleatórias e caprichosas do espírito humano.
Podemos analisar essa questão sob duas perspectivas: a científica e a humanística ou espiritual. Comecemos pela científica. Lembro-me de uma conversa que tive há alguns anos com o Sr. George Eastman sobre o tema da utilidade. O Sr. Eastman, homem sábio, gentil e perspicaz, dotado de bom gosto para música e arte, vinha me dizendo que pretendia dedicar sua vasta fortuna à promoção da educação em assuntos úteis. Ousei perguntar-lhe quem ele considerava o cientista mais útil do mundo. Ele respondeu instantaneamente: “Marconi”. Surpreendi-o ao dizer: “Qualquer que seja o prazer que derivamos do rádio ou de qualquer contribuição que o rádio e a tecnologia sem fio possam ter acrescentado à vida humana, a contribuição de Marconi foi praticamente insignificante”.
Não me esquecerei de seu espanto nessa ocasião. Ele me pediu explicações. Respondi-lhe mais ou menos da seguinte forma:
“Sr. Eastman, Marconi era inevitável. O verdadeiro mérito por tudo o que foi feito no campo da radiocomunicação pertence, na medida em que tal mérito fundamental possa ser definitivamente atribuído a alguém, ao Professor Clerk Maxwell que, em 1865, realizou certos cálculos indigestos e remotos no campo do magnetismo e da eletricidade. Maxwell reproduziu suas equações abstratas em um tratado publicado em 1873. Na reunião seguinte da Associação Britânica, o Professor H. S. Smith, de Oxford, declarou que ‘nenhum matemático pode folhear as páginas destes volumes sem perceber que eles contêm uma teoria que já contribuiu amplamente para os métodos e recursos da matemática pura’.” Outras descobertas complementaram o trabalho teórico de Maxwell durante os quinze anos seguintes. Finalmente, em 1887 e 1888, o problema científico ainda permanecia — a detecção e demonstração das ondas eletromagnéticas que são as portadoras dos sinais sem fio — foi resolvido por Heinrich Hertz, um funcionário do laboratório de Helmholtz em Berlim. Nem Maxwell nem Hertz se preocupavam com a utilidade de seu trabalho; tal pensamento jamais lhes passou pela cabeça. Eles não tinham um objetivo prático. O inventor, no sentido jurídico, era, obviamente, Marconi, mas o que Marconi inventou? Apenas o último detalhe técnico, principalmente o agora obsoleto dispositivo receptor chamado coesor, quase universalmente descartado”.
Hertz e Maxwell não poderiam inventar nada, mas foi seu trabalho teórico inútil que foi aproveitado por um técnico habilidoso e que criou novos meios de comunicação, utilidade e entretenimento pelos quais as pessoas, cujos méritos são relativamente pequenos, obtiveram fama e ganharam milhões. Quem eram as pessoas úteis? Não Marconi, mas Clerk Maxwell e Heinrich Hertz. Hertz e Maxwell eram gênios sem pensar na utilidade. Marconi era um inventor inteligente, mas sem outro pensamento além da utilidade.
A menção do nome de Hertz remeteu o Sr. Eastman às ondas hertzianas, e eu sugeri que ele perguntasse aos físicos da Universidade de Rochester exatamente o que Hertz e Maxwell haviam feito; mas eu lhe disse algo com nítida convicção: eles fizeram o seu trabalho sem pensar na utilidade e que, ao longo de toda a história da ciência, a maioria das grandes descobertas que, em última análise, provaram ser benéficas para a humanidade foram feitas por homens e mulheres movidos não pelo desejo de serem úteis, mas simplesmente pelo desejo de satisfazer a sua curiosidade.
“Curiosidade?”, perguntou o Sr. Eastman.
“Sim”, respondi, “a curiosidade, que pode ou não resultar em algo útil, é provavelmente a característica mais marcante do pensamento moderno. Não é algo novo. Remonta a Galileu, Bacon e Sir Isaac Newton, e deve ser absolutamente desimpedida. As instituições de ensino devem se dedicar ao cultivo da curiosidade e, quanto menos forem desviadas por considerações de aplicação imediata, maior a probabilidade de contribuírem não apenas para o bem-estar humano, mas também para a importante satisfação do interesse intelectual, que se pode dizer que se tornou a paixão dominante da vida intelectual nos tempos modernos.”
II
O que se pode dizer de Heinrich Hertz, trabalhando silenciosamente e sem ser notado em um canto do laboratório de Helmholtz nos últimos anos do século XIX, também pode ser dito de cientistas e matemáticos do mundo todo nos últimos séculos. Vivemos em um mundo que seria impotente sem eletricidade. Se fôssemos chamados a mencionar uma descoberta de aplicação prática mais imediata e abrangente, provavelmente concordaríamos que seria a eletricidade. Mas quem fez as descobertas fundamentais que deram origem a todo o desenvolvimento da eletricidade ao longo de mais de cem anos? A resposta é interessante. O pai de Michael Faraday era ferreiro; o próprio Michael foi aprendiz de encadernador. Em 1812, quando já tinha vinte e um anos, um amigo o levou à Royal Institution, onde ouviu Sir Humphrey Davy proferir quatro palestras sobre temas químicos. Ele fez anotações e enviou uma cópia delas para Davy. No ano seguinte, 1813, tornou-se assistente no laboratório de Davy, trabalhando em problemas químicos. Dois anos depois, ele acompanhou Davy em uma viagem ao continente. Em 1825, aos trinta e quatro anos de idade, tornou-se Diretor do Laboratório da Royal Institution, onde passou cinquenta e quatro anos de sua vida.
O interesse de Faraday logo se voltou da química para a eletricidade e o magnetismo, aos quais dedicou o resto de sua vida ativa. Trabalhos importantes, porém enigmáticos, nessa área já haviam sido realizados por Oersted, Ampère e Wollaston. Faraday solucionou as dificuldades que eles haviam deixado sem resposta e, em 1841, conseguiu induzir a corrente elétrica. Quatro anos depois, uma segunda época igualmente brilhante em sua carreira se iniciou quando ele descobriu o efeito do magnetismo sobre a luz polarizada. Suas descobertas anteriores levaram a um número infinito de aplicações práticas por meio das quais a eletricidade aliviou os fardos e aumentou as oportunidades da vida moderna. Suas descobertas posteriores, até o momento, têm sido menos prolíficas em termos de resultados práticos. Que diferença isso fez para Faraday? Nenhuma. Em nenhum momento de sua carreira incomparável ele se interessou por utilidade. Estava absorto em desvendar os enigmas do universo; inicialmente os enigmas químicos, depois, os físicos. Para ele, a questão da utilidade jamais foi levantada. Qualquer suspeita de utilidade teria restringido sua curiosidade incansável. No fim, a utilidade se revelou, mas nunca foi um critério ao qual sua experimentação incessante pudesse ser submetida. Na atmosfera que envolve o mundo hoje, talvez seja oportuno enfatizar o fato de que o papel desempenhado pela ciência em tornar a guerra mais destrutiva e mais horrível foi um subproduto inconsciente e não intencional da atividade científica. Lord Rayleigh, presidente da Associação Britânica para o Avanço da Ciência, em um discurso recente, aponta em detalhes como a insensatez do ser humano, e não a intenção dos cientistas, é responsável pelo uso destrutivo dos agentes empregados na guerra moderna. O estudo inocente da química dos compostos de carbono, que levou a infinitos resultados benéficos, mostrou que a ação do ácido nítrico sobre substâncias como benzeno, glicerina, celulose, etc., resultou não apenas na benéfica indústria de corantes de anilina, mas também na criação da nitroglicerina, que tem usos bons e ruins. Um pouco mais tarde, Alfred Nobel, voltando-se para o mesmo assunto, mostrou que, misturando nitroglicerina com outras substâncias, explosivos sólidos que podiam ser manuseados com segurança poderiam ser produzidos — entre eles, a dinamite. É à dinamite que devemos nosso progresso na mineração, na construção de túneis ferroviários como os que agora atravessam os Alpes e outras cadeias de montanhas; mas, é claro, a dinamite foi usada indevidamente por políticos e soldados. Os cientistas, no entanto, não são mais culpados do que são culpados por um terremoto ou uma inundação. O mesmo pode ser dito de gases venenosos. Plínio morreu ao inalar dióxido de enxofre na erupção do Vesúvio, há quase dois mil anos. O cloro não foi isolado por cientistas para fins bélicos, e isso se aplica ao gás mostarda. Essas substâncias poderiam ser limitadas a usos benéficos, mas quando o avião foi aperfeiçoado, as pessoas cujos corações estavam envenenados e cujos cérebros estavam confusos perceberam que o avião, uma invenção inocente, resultado de um longo esforço científico e desinteressado, poderia ser transformado em um instrumento de destruição, algo que ninguém jamais havia imaginado e para o qual ninguém jamais havia almejado deliberadamente. No domínio da matemática superior, inúmeros exemplos podem ser citados. Por exemplo, a obra matemática mais abstrusa dos séculos XVIII e XIX foi a “Geometria Não Euclidiana”.
Seu inventor, Gauss, embora reconhecido por seus contemporâneos como um matemático distinto, não ousou publicar seu trabalho sobre “Geometria Não Euclidiana” por um quarto de século. Na verdade, a própria teoria da relatividade, com todas as suas infinitas implicações práticas, teria sido totalmente impossível sem o trabalho que Gauss realizou em Göttingen. Além disso, o que hoje é conhecido como “teoria dos grupos” era uma teoria matemática abstrata e inaplicável. Ela foi desenvolvida por pessoas curiosas, cuja curiosidade e experimentações as levaram a caminhos estranhos; mas a “teoria dos grupos” é hoje a base da teoria quântica da espectroscopia, que é usada diariamente por pessoas que não têm ideia de como ela surgiu. Todo o cálculo de probabilidades foi descoberto por matemáticos cujo interesse real era a racionalização do jogo. Ele falhou no propósito prático que almejavam, mas forneceu uma base científica para todos os tipos de seguro, e vastas áreas da física do século XIX são baseadas nele. De uma edição recente da revista Science, cito o seguinte:
A estatura do gênio do Professor Albert Einstein atingiu novos patamares quando foi revelado que o erudito físico e matemático desenvolveu, há quinze anos, cálculos matemáticos que agora estão ajudando a solucionar os mistérios da incrível fluidez do hélio próximo ao zero absoluto da escala de temperatura. Antes do simpósio sobre ação intermolecular da Sociedade Química Americana, o Professor F. London, da Universidade de Paris, então professor visitante na Universidade Duke, atribuiu ao Professor Einstein o conceito de um gás “ideal” que apareceu em artigos publicados em 1924 e 1925. Os relatórios de Einstein de 1925 não tratavam da teoria da relatividade, mas discutiam problemas aparentemente sem qualquer significado prático na época. Eles descreviam a degenerescência de um gás “ideal” próximo aos limites inferiores da escala de temperatura. Como se sabia que todos os gases se condensavam em líquidos nas temperaturas em questão, os cientistas meio que ignoraram o trabalho de Einstein de quinze anos atrás. No entanto, o comportamento recentemente descoberto do hélio líquido trouxe o conceito de Einstein, que havia sido deixado de lado, para uma nova utilidade. A maioria dos líquidos aumenta sua viscosidade, torna-se mais pegajosa e flui com menos facilidade quando esfria. A expressão “mais frio que melaço em janeiro” é o conceito leigo de viscosidade e está correta. O hélio líquido, porém, é uma exceção intrigante. Na temperatura conhecida como ponto delta, apenas 2,19 graus acima do zero absoluto, o hélio líquido flui melhor do que em temperaturas mais altas e, de fato, o hélio líquido é quase tão nebuloso quanto um gás. Outro enigma em seu comportamento peculiar é sua enorme capacidade de conduzir calor. No ponto delta, ele é cerca de 500 vezes mais eficiente nesse aspecto do que o cobre à temperatura ambiente. O hélio líquido, com essas e outras anomalias, representa um grande mistério para físicos e químicos.
O professor London afirmou que a interpretação do comportamento do hélio líquido pode ser mais bem explicada considerando-o como um gás “ideal” de Bose-Einstein, usando a matemática desenvolvida em 1924-25 e incorporando alguns dos conceitos da condução elétrica de metais. Por analogia simples, a incrível fluidez do hélio líquido pode ser parcialmente explicada imaginando a fluidez como algo semelhante à migração de elétrons em metais para explicar a condução elétrica. Vejamos outra direção. No domínio da medicina e da saúde pública, a ciência da bacteriologia desempenhou, durante meio século, o papel principal. Qual é a sua história? Após a Guerra Franco-Prussiana de 1870, o governo alemão criou a Universidade de Estrasburgo. Seu primeiro professor de anatomia foi Wilhelm von Waldeyer, posteriormente professor de anatomia em Berlim. Em suas Memórias, ele relata que entre os estudantes que o acompanharam a Estrasburgo durante seu primeiro semestre havia um jovem, discreto e reservado, de dezessete anos chamado Paul Ehrlich. O curso usual de anatomia na época consistia em dissecação e exame microscópico de tecidos. Ehrlich dava pouca ou nenhuma atenção à dissecação, mas, como Waldeyer observa:
Notei logo cedo que Ehrlich trabalhava por horas em sua mesa, completamente absorto em observação microscópica. Além disso, sua a mesa foi sendo gradualmente coberta com manchas coloridas de todo tipo. Certo dia, ao vê-lo sentado trabalhando, aproximei-me e perguntei o que ele estava fazendo com toda aquela variedade de cores do arco-íris em sua mesa. Então, esse jovem estudante em seu primeiro semestre, supostamente cursando a disciplina regular de anatomia, olhou para mim e disse com indiferença: “Ich probiere”: Isso poderia ser traduzido livremente como “Estou tentando” ou “Estou apenas brincando”.
Respondi-lhe: “Muito bem. Continue com suas brincadeiras.”
Logo percebi que, sem qualquer ensinamento ou orientação da minha parte, eu tinha em Ehrlich um aluno de qualidade excepcional.
Waldeyer, sabiamente, o deixou em paz. Ehrlich trilhou seu caminho precariamente pelo currículo da medicina e, por fim, obteve seu diploma principalmente porque era óbvio para seus professores que ele não tinha a menor intenção de utilizar o seu diploma de médico na prática. Posteriormente, ele foi para Breslau, onde trabalhou com o Professor Cohnheim, professor do Dr. Welch, fundador e idealizador da Escola de Medicina Johns Hopkins. Não creio que a ideia de uso prático tenha passado pela cabeça de Ehrlich. Ele estava interessado. Ele era curioso; ele continuou brincando. É claro que suas brincadeiras eram guiadas por instinto profundo, mas era uma motivação puramente científica, não utilitarista. Qual foi o resultado? Koch e seus associados estabeleceram uma nova ciência, a bacteriologia. Os experimentos de Ehrlich foram então aplicados por um colega estudante, Weigert, à coloração de bactérias, auxiliando assim em sua diferenciação. O próprio Ehrlich desenvolveu a coloração do esfregaço sanguíneo com os corantes nos quais se baseia nosso conhecimento moderno da morfologia dos glóbulos sanguíneos, vermelhos e brancos. Não passa um dia sem que a técnica de Ehrlich seja empregada em milhares de hospitais em todo o mundo no exame do sangue. Assim, a aparente brincadeira sem propósito na sala de dissecação de Waldeyer em Estrasburgo tornou-se um fator principal na prática diária da medicina.
Darei um exemplo da indústria, um escolhido aleatoriamente; pois existem vários. O professor Berl, do Instituto de Tecnologia Carnegie (Pittsburgh), escreve o seguinte: “o fundador da moderna indústria de rayon foi o conde francês Chardonnet. Sabe-se que ele usava uma solução de nitrocelulose em éter-álcool e que pressionava tal solução viscosa através de capilares em água, que servia para coagular o filamento de nitrato de celulose. Após a coagulação, esse filamento entrava em contato com o ar e era enrolado em bobinas. Certo dia, Chardonnet inspecionou sua fábrica francesa em Besançon. Por um acidente, a água que deveria coagular o filamento de nitrato de celulose parou de funcionar. Os operários descobriram que a operação de fiação funcionava muito melhor sem água do que com água. Esse foi o nascimento do importantíssimo processo de fiação a seco, que hoje é realizado em larga escala”.
III
Não estou sugerindo, nem por um momento, que tudo o que acontece nos laboratórios acabará por ter alguma utilidade prática inesperada, ou que uma utilidade prática final seja o seu propósito. Estou mais para defender a abolição da palavra “utilidade” e a libertação do espírito humano. Certamente, libertaremos assim alguns excêntricos inofensivos. Certamente, desperdiçaremos assim alguns dólares preciosos. Mas o que é infinitamente mais importante é que estaremos a libertar a mente humana das amarras e a pôr-lhe as portas para as aventuras que, nos nossos dias, por um lado, levaram Hale, Rutherford, Einstein e os seus pares a milhões e milhões de quilômetros aos confins do espaço e, por outro, libertaram a energia ilimitada aprisionada no átomo. O que Rutherford e outros, como Bohr e Millikan, fizeram por pura curiosidade, no esforço de compreender a estrutura do átomo, libertou forças que podem transformar a vida humana; mas esse resultado prático final, imprevisto e imprevisível, não é oferecido como justificativa para Rutherford, Einstein, Millikan, Bohr ou qualquer um de seus pares. Deixem-nos em paz. Nenhum administrador educacional pode direcionar os caminhos pelos quais esses ou outras pessoas trabalharão. O desperdício, admito novamente, parece prodigioso. Na verdade, não é. Todo o desperdício que seria resumido no desenvolvimento da ciência da bacteriologia é insignificante quando comparado às vantagens que surgiram das descobertas de Pasteur, Koch, Ehrlich, Theobald Smith e muitos outros – vantagens que jamais teriam surgido se a ideia de possível uso tivesse permeado suas mentes. Esses grandes artistas – pois tais são os cientistas e bacteriologistas – disseminaram o espírito que prevalecia nos laboratórios, onde simplesmente seguiam a linha de sua própria curiosidade natural. Não estou criticando instituições como faculdades de engenharia ou direito, nas quais o motivo da utilidade necessariamente predomina. Não raro, os papéis se invertem, e as dificuldades práticas encontradas na indústria ou nos laboratórios estimulam investigações teóricas que podem ou não resolver os problemas que as sugeriram, mas também podem abrir novos horizontes, inúteis no momento, mas repletos de conquistas futuras, práticas e teóricas.
Com o rápido acúmulo de conhecimento “inútil” ou teórico, criou-se uma situação na qual se tornou cada vez mais possível atacar problemas práticos com um espírito científico. Não apenas inventores, mas também cientistas “puros” se entregaram a essa prática. Mencionei Marconi, um inventor que, embora benfeitor da humanidade, na verdade, apenas “explorou o intelecto alheio”. Edison pertence à mesma categoria. Pasteur era diferente. Ele era um grande cientista; mas não se furtava a atacar problemas práticos — como a condição das vinhas francesas ou os problemas da fabricação de cerveja — e não apenas resolver a dificuldade imediata, mas também extrair do problema prático alguma conclusão teórica de longo alcance, “inútil” no momento, mas que provavelmente se tornaria “útil” mais tarde de alguma forma imprevista. Ehrlich, fundamentalmente especulativo em sua curiosidade, voltou-se com afinco para o problema da sífilis e o perseguiu obstinadamente até encontrar uma solução de uso prático imediato: a descoberta da arsfenamina. As descobertas da insulina por Banting para uso no tratamento do diabetes e do extrato de fígado por Minot e Whipple para uso no tratamento da anemia perniciosa pertencem à mesma categoria: ambas foram feitas por cientistas, que perceberam que muito conhecimento “inútil” havia sido acumulado por pessoas desinteressadas em suas aplicações práticas, mas que o momento era propício para levantar questões práticas de maneira científica. Assim, torna-se óbvio que se deve ter cautela ao atribuir a descoberta científica inteiramente a uma única pessoa. Quase toda descoberta tem uma história longa e precária. Alguém encontra um pouco aqui, outro um pouco ali. Um terceiro passo surge mais tarde e assim por diante, até que um gênio junte as peças e faça a contribuição decisiva. A ciência, como o Mississippi, começa em um pequeno riacho em uma floresta distante. Gradualmente, outros rios aumentam seu volume. E o rio caudaloso que rompe os diques é formado por inúmeras nascentes.
Não posso abordar este aspecto de forma exaustiva, mas posso dizer de passagem o seguinte: ao longo de um período de cem ou duzentos anos, as contribuições das escolas profissionais para as suas respectivas atividades provavelmente residirão, não tanto na formação de pessoas que amanhã poderão se tornar engenheiros, advogados ou médicos práticos, mas sim no fato de que ocorre enorme quantidade de atividades aparentemente inúteis, ainda que se busquem objetivos estritamente práticos, Dessas atividades inúteis surgem descobertas que podem muito bem se revelar infinitamente mais importantes para a mente e o espírito humano do que a realização dos fins úteis para os quais as escolas foram fundadas. As considerações que mencionei enfatizam — se é que era necessário enfatizar — a importância primordial da liberdade espiritual e intelectual. Falei de ciência experimental; falei de matemática; mas o que digo é igualmente verdadeiro para a música, a arte e todas as outras expressões do espírito humano livre. O simples fato de elas trazerem satisfação a uma alma individual voltada para a sua própria purificação e elevação é a justificativa necessária de que precisam. E ao justificarmos isso sem qualquer referência, implícita ou explícita, à utilidade, justificamos faculdades, universidades e institutos de pesquisa. Uma instituição que liberta sucessivas gerações de almas humanas está amplamente justificada, independentemente de este ou aquele graduado dar ou não uma suposta contribuição útil ao conhecimento humano. Um poema, uma sinfonia, uma pintura, uma verdade matemática, um novo fato científico, todos carregam em si toda a justificativa de que universidades, faculdades e institutos de pesquisa precisam ou exigem. O assunto que estou discutindo tem, neste momento, uma pungência peculiar.
Em certos lugares, em particular na Alemanha e Itália, há um esforço enorme para reprimir a liberdade do espírito humano. As universidades foram reorganizadas de tal forma que se tornaram ferramentas daqueles que acreditam em um credo político, econômico ou racial específico. De vez em quando, um indivíduo, desatento em uma das poucas democracias que restam neste mundo, chega a questionar a importância fundamental da liberdade acadêmica absolutamente irrestrita. O verdadeiro inimigo da raça humana não é o pensador destemido e irresponsável, esteja ele certo ou errado. O verdadeiro inimigo é a pessoa que tenta moldar o espírito humano para que ele não ouse abrir suas asas, como suas asas já foram abertas na Itália e na Alemanha, assim como na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.
Não é uma ideia nova. Foi a ideia que animou von Humboldt quando, na hora da conquista da Alemanha por Napoleão, criou a Universidade de Berlim. É a ideia que animou o presidente Gilman na criação da Universidade Johns Hopkins, após a qual todas as universidades deste país buscaram, em maior ou menor grau, se reinventar. É a ideia à qual todo indivíduo que valoriza sua alma imortal será fiel, quaisquer que sejam as consequências pessoais para si. A justificativa da liberdade espiritual vai, no entanto, muito além da originalidade, seja no âmbito da ciência ou do humanismo, pois implica tolerância em toda a gama de diferenças humanas. Diante da história da raça humana, o que pode ser mais tolo ou ridículo do que gostos ou desgostos fundados em raça ou religião? A humanidade quer sinfonias, pinturas e verdades científicas profundas, ou quer sinfonias cristãs, pinturas cristãs, ciência cristã, ou sinfonias judaicas, pinturas judaicas, ciência judaica, ou contribuições e expressões mulçumanas, egípcias, japonesas, chinesas, americanas, alemãs, russas, comunistas ou conservadoras da infinita riqueza da alma humana?
IV
Entre as consequências mais marcantes e imediatas da intolerância estrangeira, posso, creio, citar com justiça o rápido desenvolvimento do Instituto de Estudos Avançados, fundado pelo Sr. Louis Bamberger e sua irmã, a Sra. Felix Fuld, em Princeton, Nova Jersey. A criação do Instituto foi sugerida em 1930. Sua localização, em Princeton, deveu-se em parte ao apego dos fundadores ao Estado de Nova Jersey, mas, a meu ver, também porque Princeton possuía uma pequena escola de pós-graduação de alta qualidade com a qual era possível uma cooperação bastante próxima. O Instituto tem uma dívida para com a Universidade de Princeton que jamais será totalmente paga. O trabalho do Instituto, com uma parte considerável de seu corpo docente, teve início em 1933. Em seu corpo docente, encontram-se eminentes acadêmicos americanos: Veblen, Alexander e Morse, entre os matemáticos; Meritt, Lowe e a Srta. Goldman, entre os humanistas; Stewart, Riefler, Warren, Earle e Mitrany, entre os publicitários e economistas. E a estes somam-se estudiosos e cientistas de igual calibre reunidos na Universidade de Princeton, na sua biblioteca e em seus laboratórios. Mas o Instituto de Estudos Avançados deve a Hitler Einstein, Weyl e Von Neumann na matemática; Herzfeld e Panofsky no campo dos estudos humanísticos; e uma série de jovens que, nos últimos seis anos, estiveram sob a influência deste distinto grupo e já estão reforçando o conhecimento americano em todas as regiões do país.
O Instituto é, do ponto de vista organizacional, a coisa mais simples e informal que se possa imaginar. Consiste em três escolas: uma Escola de Matemática, uma Escola de Estudos Humanísticos e uma Escola de Economia e Política. Cada escola é composta por um grupo permanente de professores e um grupo de membros que se renova anualmente. Cada escola administra seus próprios assuntos como bem entender; dentro de cada grupo, cada indivíduo dispõe de seu tempo e energia como bem entender. Os membros, provenientes de vinte e dois países estrangeiros e trinta e nove instituições de ensino superior dos Estados Unidos, são admitidos, se considerados merecedores, pelos diversos grupos. Eles desfrutam exatamente da mesma liberdade que os professores. Podem trabalhar com este ou aquele professor, conforme combinarem individualmente; podem trabalhar sozinhos, consultando de tempos em tempos qualquer pessoa que possa ser útil. Não se segue nenhuma rotina; não se estabelecem linhas divisórias entre professores, membros ou visitantes. Os alunos e professores de Princeton e os membros e professores do Instituto convivem tão livremente que se tornam indistinguíveis. Cultiva-se o aprendizado. Os resultados para o indivíduo e para a sociedade são deixados por si mesmos. Não há reuniões de professores; não existem comissões. Assim, as pessoas com ideias desfrutam de condições favoráveis à reflexão e à troca de ideias. Um matemático pode cultivar a matemática sem distrações; o mesmo se admite o humanista em sua área, um economista ou um estudante de política na sua. A administração foi minimizada em extensão e importância. Pessoas sem ideias, sem capacidade de concentração em ideias, não se sentem em casa no Instituto. Talvez eu possa esclarecer melhor esse ponto citando brevemente alguns exemplos. Concedeu-se uma bolsa para permitir que um professor de Harvard viesse a Princeton: ele escreveu pedindo,
“Quais são os meus deveres?”
Respondi: “Você não tem deveres, apenas oportunidades.”
Um jovem e talentoso matemático, que havia passado um ano em Princeton, veio se despedir. Quando estava prestes a sair, comentou:
“Talvez você queira saber o que este ano significou para mim.”
“Sim”, respondi.
“A matemática”, retrucou ele, “está se desenvolvendo rapidamente; a literatura atual é extensa. Já se passaram mais de dez anos desde que concluí o meu doutorado. Por um tempo, consegui acompanhar o assunto; mas ultimamente isso se tornou cada vez mais difícil e incerto. Agora, depois de um ano aqui, as persianas estão levantadas; a sala está iluminada; as janelas estão abertas. Tenho em mente dois artigos que escreverei em breve.
“Quanto tempo isso vai durar?”, perguntei.
“Cinco anos, talvez dez.”
“E depois?”
“Voltarei.”
O terceiro exemplo é recente. Um professor de uma grande universidade ocidental chegou a Princeton no final de dezembro do ano passado. Ele pretendia retomar alguns trabalhos com o Professor Morey (na Universidade de Princeton). Mas Morey sugeriu que talvez valesse a pena visitar Panofsky e Schwarzenski (no Instituto). Agora ele está ocupado com os três.
“Ficarei”, acrescentou, “até outubro do ano que vem.”
“Você vai achar quente no auge do verão”, eu disse.
“Estarei ocupado demais e feliz demais para notar.”
Assim, a liberdade não traz estagnação, mas sim o risco do excesso de trabalho. A esposa de um membro inglês perguntou recentemente:
“Todos trabalham até às duas da manhã?”
O Instituto ainda não possui um prédio. No momento, os matemáticos são hóspedes dos matemáticos de Princeton em Fine Hall; alguns dos humanistas são hóspedes dos humanistas de Princeton no McCormick Hall; outros trabalham em salas espalhadas pela cidade. Os economistas ocupam uma suíte no Princeton Inn. O meu escritório fica em um prédio comercial na Nassau Street, onde trabalho entre lojistas, dentistas, advogados, quiropráticos e grupos de acadêmicos de Princeton, pesquisam sobre o governo local e um estudo populacional. Tijolos e argamassa são, portanto, bastante dispensáveis, como o presidente Gilman provou em Baltimore há mais de sessenta anos. No entanto, sentimos falta do contato informal uns com os outros e estamos prestes a remediar essa deficiência com a construção de um prédio fornecido pelos fundadores, que será chamado de Fuld Hall. Mas a formalidade não irá além disso. O Instituto deve permanecer pequeno; e manterá firme a convicção de que o Grupo do Instituto deseja lazer, segurança, liberdade da organização e da rotina e, finalmente, contatos informais com os acadêmicos da Universidade de Princeton e outros que, de tempos em tempos, podem ser atraídos para Princeton de lugares distantes. Entre eles, Niels Bohr veio de Copenhague, von Laue de Berlim, Levi Civita de Roma, André Weil de Estrasburgo, Dirac e G. H. Hardy de Cambridge, Pauli de Zurique, Lemaitre de Lovaina, Wade-Gery de Oxford e americanos de Harvard, Yale, Columbia, Cornell, Johns Hopkins, Chicago, Califórnia e outros centros de luz e saber.
Não fazemos promessas, mas acalentamos a esperança de que a busca irrestrita pelo conhecimento inútil terá consequências no futuro, como no passado. Em nenhum momento, porém, defendemos o Instituto com base nisso. Ele existe como um paraíso para acadêmicos que, como poetas e músicos, conquistaram o direito de fazer o que bem entendem e que realizam mais quando têm essa oportunidade.
1 Tanto a tradução do texto original quanto a formulação do resumo e das palavras-chave cabem a Marco Aurélio Cremasco.
