Conteúdo principal Menu principal Rodapé
Manchete Notícia

Daniela Arbex vence o Prêmio Jabuti 2025 com livro sobre incêndio no Ninho do Urubu

Terceiro Jabuti da jornalista reafirma o poder da reportagem literária como instrumento de memória e denúncia social.

A jornalista Daniela Arbex conquistou o Prêmio Jabuti 2025 na categoria Biografia e Reportagem com o livro Longe do Ninho, publicado pela Editora Intrínseca. A obra reconstrói, com rigor e sensibilidade, os bastidores do incêndio que matou dez jogadores da base do Flamengo, no centro de treinamento do clube carioca, em janeiro de 2019 — uma das tragédias mais marcantes do esporte brasileiro.

A cerimônia de premiação aconteceu na noite de segunda-feira, 27, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, reunindo escritores, jornalistas e editoras de todo o país. Longe do Ninho superou obras finalistas de nomes consagrados, como A bem-amada, de Delmo Moreira (Todavia), Memórias, de Rubens Ricupero (Unesp), O indomável, de Jamil Chade (Record) e O púlpito, de Anna Virginia Balloussier (Todavia).

Em suas redes sociais, Arbex celebrou o reconhecimento com emoção:

“Estou muito feliz com o reconhecimento por esse trabalho ao lado de outros autores tão importantes, que eu respeito muito e são tão admirados. O livro faz uma denúncia potente sobre a falta de acolhimento dos clubes — não só brasileiros, mas do mundo — e sobre a necessidade de cuidar da infância e da saúde mental desses meninos.”

A força da reportagem literária

Publicado em 2024, Longe do Ninho nasceu de uma extensa investigação jornalística. Arbex mergulhou em laudos técnicos, trocas de mensagens, e-mails, dados inéditos e entrevistas com todas as famílias das vítimas, compondo um retrato doloroso e necessário sobre as falhas estruturais e humanas que antecederam a tragédia. O livro também reflete sobre o sonho e o abandono de jovens atletas que deixam suas casas em busca de um futuro no futebol profissional.

O reconhecimento da obra no Jabuti reforça a importância da reportagem literária como ferramenta de memória e de transformação social. Em um país que convive com o esquecimento institucionalizado, Arbex reafirma o papel do jornalista como guardião da verdade e da empatia.

Uma trajetória dedicada à memória

Natural de Juiz de Fora (MG), Daniela Arbex é uma das principais vozes do jornalismo literário brasileiro. Com mais de duas décadas de carreira, começou no jornal Tribuna de Minas, onde produziu reportagens de impacto que a projetaram nacionalmente. Sua escrita alia apuração rigorosa e narrativa sensível, transformando histórias de dor e injustiça em obras de grande alcance social.

Autora de seis livros, Arbex é conhecida por abordar tragédias humanas e coletivas com profundidade e respeito. Entre suas principais obras estão:

  • Holocausto Brasileiro (2013) — sobre o Hospital Colônia de Barbacena, onde mais de 60 mil pessoas morreram em condições desumanas.
  • Cova 312 (2015) — investigação sobre desaparecidos políticos durante a ditadura militar.
  • Todo dia a mesma noite (2018) — relato da tragédia da Boate Kiss, que inspirou a série homônima da Netflix.
  • Arrastados (2022) — sobre o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG).
  • Longe do Ninho (2024) — sobre o incêndio no CT do Flamengo.

Com Longe do Ninho, Daniela Arbex conquista seu terceiro Jabuti. Ela já havia vencido em 2016 com Cova 312 e ficado em segundo lugar em 2014 com Holocausto Brasileiro. Seu trabalho também lhe rendeu o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, o Prêmio Embratel de Jornalismo, o Prêmio Direitos Humanos da Presidência da República e o Prêmio de Excelência da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

Um olhar que humaniza

Mais do que registrar tragédias, a obra de Arbex busca dar voz aos esquecidos e expor as estruturas de poder que naturalizam o sofrimento. Em Longe do Ninho, ela denuncia a negligência que ceifou vidas promissoras e aponta para a urgência de repensar o modo como o país trata a infância, o esporte e a responsabilidade coletiva.

Com essa nova vitória, Daniela Arbex reafirma sua posição como uma das autoras mais importantes da literatura de não ficção no Brasil — e como exemplo de que o jornalismo, quando guiado pela escuta e pela ética, continua sendo uma das mais potentes formas de fazer justiça pela palavra.

Artista Residente

Daniela Arbex foi residente no “Programa Hilda Hilst do Artista Residente”, do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA), iniciativa que propõe a aproximação entre artistas, pesquisadores e sociedade a partir de projetos interdisciplinares. Durante a residência “O papel da literatura na construção da memória coletiva do Brasil“, Arbex realizou ao longo de dois meses palestras, oficinas, encontros e mesas-redondas com convidados especiais.

Ir para o topo