A apresentação “Saúde mental como gramática possível para a violência no contemporâneo” abriu o I Seminário IdEA com uma defesa clara: compreender a violência no Brasil exige tratá-la como fenômeno estrutural — e não como anomalia — e reconhecer que a saúde mental se tornou uma linguagem central para nomear o mal-estar contemporâneo.
Logo no início, a professora Dra. Rosana Onoclo Campos, coordenadora do grupo de estudos “Saúde mental e violência: tessituras dissidentes“, situou o trabalho do grupo como um convite ao pensamento livre e transdisciplinar, reunindo profissionais de formações diversas — da saúde às humanidades e às artes — para construir uma leitura abrangente da violência “no aqui e agora”. A preocupação, segundo Onocko, não é apenas analítica: o objetivo declarado é subsidiar e qualificar políticas públicas, ampliando sua capacidade de enfrentar problemas históricos com mais eficácia social.
O ponto de partida é contundente: a violência seria uma “marca fundacional” do país, com raízes na história de abuso e exploração dos corpos escravizados e em estruturas persistentes de desigualdade. Nesse quadro, a apresentação destacou a relevância das interseccionalidades, dos efeitos do racismo e do patriarcado, além de uma agenda de investigação voltada à vida urbana e ao papel das mídias, especialmente as redes sociais, na amplificação e na espetacularização do cotidiano violento.
Para ilustrar como a sociedade naturaliza certas imagens e experiências, a professora recorreu a referências simbólicas — como trechos de Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e uma fotografia associada a relatórios sobre desigualdades — para sublinhar a dimensão cultural e afetiva que atravessa as cidades. A cidade, nessa abordagem, aparece não apenas como cenário, mas como espaço de trocas e de disputas — de mercadorias, sim, mas também de palavras, desejos e memórias.
Um eixo importante do argumento apontou que políticas públicas criadas para enfrentar a violência e suas repercussões podem ser, repetidamente, “capturadas” e recolocadas a serviço de um ciclo de reprodução de humilhação social. A apresentação dialogou ainda com a noção de “cidadania mutilada”, associada a acessos regulados e cartoriais a direitos — em que o reconhecimento formal (inclusive via laudos e comprovações) opera como condição para obter garantias básicas.
É nesse contexto que a professora introduziu uma das teses mais provocativas do encontro: a de que diagnósticos em saúde mental funcionam como chaves de acesso dentro de uma cidadania regulada, abrindo portas para serviços e direitos, mas também impondo regras. Quando esse mal-estar se “traveste” de diagnóstico, alertou-se, ele pode ser despolitizado e capturado por uma leitura estritamente biomédica, reforçando processos de medicalização e enfraquecendo a potência transformadora do próprio mal-estar como motor de mudança social.
A apresentação também enfatizou a persistência de uma sociabilidade segregada no país e defendeu a necessidade de criar “porosidade social” — isto é, dispositivos e espaços que permitam convivência real entre diferentes grupos, reduzindo distâncias simbólicas e materiais. Transporte público, praças, feiras, cultura e equipamentos públicos foram mencionados como dimensões estratégicas para reconstruir proximidade e copresença — condição indispensável para que empatia e corresponsabilidade deixem de ser abstrações.
No campo das propostas, a apresentação reforçou a importância de uma ética do cuidado e de dispositivos clínicos e educacionais sensíveis, capazes de estimular agentes públicos a agir, e não apenas reagir, ao sofrimento social. Houve destaque para a formação continuada de trabalhadores da ponta e para a necessidade de inserir, de modo estruturante, componentes antirracistas nessas formações, enfrentando pactos de silenciamento e naturalização das desigualdades.
Ao concluir, a mesa defendeu que sustentar esperança e ternura não é ingenuidade, mas tarefa política: exige gestos ativos, aprendizagem contínua e crítica corajosa sobre o que as políticas públicas produzem — e sobre o que ainda deixam de produzir — em um país atravessado por violência, racismo e patriarcado. Em um tom de convite, a apresentação retomou a ideia de que, mesmo “no inferno dos vivos”, é preciso identificar o que não é inferno e “fazer que dure”, abrindo espaço para outras formas de viver junto.
Assista a apresentação na íntegra no YouTube.
